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29 agosto 2011


As horas vão passando
escorrendo, evaporando
e os nossos olhos, cheios de memória e intenção
lacrimejam-se, na esperança de comoverem-se consigo mesmos
e moverem as montanhas que inventamos entre nós

e a Terra a girar e girar
acaba atordoando meus sentimentos e estômago
bagunçando minhas roupas sem par no armário
o sol, que não pára de se por em mim
nada irradia que não me doa
nada aquece que não me faça erupir por dentro

e os meus olhos mergulhados
seus olhos cheios de história devoram
em fotos e fatos, sem ondes ou quandos

diante da lua que passa apressada no céu
meu sangue corre desvairado atrás dos senões e poréns
colecionando versos para sabe-se quem
corre cansado de tantas horas doloridas
corre desesperado para lugar nenhum...

e esse sol que me atinge sem luz
e essa lua intensa e magoada
e essas horas sem corpo ou recheio
com que frequência não aguentaram de tanto prazer?

e os meus dedos trêmulos de silêncio
minha voz calada de poesia
minha alma múltipla de horizontes e solidão
com que frequência experimentou realmente o amor?

23 julho 2011

Você, a sua maneira, a seu tempo
respira quase todos os meus desejos e parênteses
transpira o açúcar dos nossos dias bons,
costura as pontas dos dias ruins,
fazendo um lençol de estrelas sob os nossos corpos leves.

Você, pelos cantos da nossa casa sem paredes,
assovia as canções que só minha pele sabe ouvir
exala todas as primaveras num só olhar a vaguear por aí
a seu ritmo, em seu tom,
escancara todas as janelas, desconstrói o meu vocabulário
me inunda de reticências.

Você, agridoce e anuviado,
embebeda a minha razão, bagunça as minhas dores
e, confundindo a minha solidão,
faz com que minhas letras, trôpegas, componham versos sem palavras
com tanta beleza e verdade, sou muda

quero apenas sentir a vida em nós
sei apenas respirar esses vãos
fotografar sua voz

quero apenas isso
os meus desejos e parênteses no seu suspiro
o nosso açúcar
as primaveras e as desconstruções
as reticências
os nossos risos e nuvens
a vontade de estar.

05 janeiro 2011


"E ela estava ali, parada, olhando, ouvindo, se esforçando para não sentir nada que lhe fosse proibido... ela estava ali, me vendo chorar feito uma criança, conhecendo toda minha solidão, me invadindo conforme eu lhe estendia todas as revoluções que estavam me enlouquecendo. Senti o esforço dela em não me tocar, senti o cheiro da vontade de estar mais perto, a agonia por quebrar todos os procedimentos politicamente corretos e se lançar ao novo. Eu senti sua dor em nossa impossível chance, vi em seus olhos as palavras que mentia para não se entregar, acolhi cada um de seus vagos e falsos conselhos. Lutei para que meu peito explodisse menos e não me entregasse ainda mais, lutei para que me fizesse entender na compreensão de sua sinceridade a negar tudo quanto pudesse entregá-la.
Sei que nossas solidões se reconheceram, nossos olhos se esconderam uns dos outros para podermos seguir adiante, apesar de toda aquela entrega emocionada e silenciosa."

e depois de seus olhos me gritarem essas rodas vivas e rodas gigantes, consentindo meus silêncios e mentiras mal contadas pelo olhar, só me restam as cordas do meu empoeirado violão...

de carne, pano e poesia


à minha poupeé de tissu,
que sempre vem brincar nos meus pensamentos,
vem chorar nos meus desesperos,
ver rir bem alto quando é de riso o meu choro,
vem dissolver as minhas angústias
e celebrar os meus sintomas de vida...

à minha boneca de carne, pano e poesia,
que sempre me vem feito saudade,
quando me cantam e encantam seus sons favoritos,
quando me invadem seus poetas amantes,
quando me encontram seus silêncios e abismos...

e quando me sinto só,
no meio de toda gente,
sei que é ela o pedaço que me falta,
e quando sou silêncio no velho jorge ben,
não sou ninguém menos que ela...

porque ela,
doce e cruelmente,
cheia de humanidade,
escreve um livro comigo,
desde ontem, desde nunca, desde sempre...
sem linha, sem palavra, sem voz,
porque a gente já não precisa de nada disso...

30 março 2010

sem nome nem nada


Veio leve
solta
morena de sol e som
Veio envolta em ar que desconheço
descalça e tardia de razões
sem propósitos, sem grandes planos, sem mistérios

Trouxe em sua pele tons pastéis e sons sutis
em seus pelos substâncias inéditas que me contaminaram
falou da música que ouvira repetidamente no rádio distraída sem perceber
falou da delicadeza com que o sorriso da criança que via toda semana a fez sentir prazer por estar ali, olhando

Veio bela
veio toda
sem dimensões ou precipícios, veio senhora e menina
disposta a contar e ouvir como quem senta na soleira da porta no fim do dia
fazendo parte de alguma coisa
sendo parte do acontecimento e da poesia de viver
sem nome nem nada

veio sem pressa
sem peso
veio prosa cadenciada e gostosa de se ouvir
veio voz.

14 fevereiro 2010


Chegaste
E, de repente, diante teu olhar pierrot
Mergulhei em todas as minhas agonias e desejos
Como quem redescobre cada espaço, cada emoção, cada palavra
Num mundo que, adormecido, já não poderia se recompor
Sorri por dentro, simplesmente por estar ali
A contemplar...

Fervi embriagada e escondida, a querer,
Nos confins de tuas noites bailarinas, ser sonho
Ser pavor, calor, poesia desenfreada
E rasgando todos os meus dias e planos vieste, manso,
Fazendo-me o coração inchar, romper com o mundo,
Tragando os meus minutos e canções
Cujos ritmos e rimas tentaram desvendar teu caminhar

Eu, sem perdão, sou total entrega
À correnteza controversa de sua pele e sua voz
Às estranhezas de teu silêncio e música
À tua sede de tudo...

Como um céu que fica verde, lilás, vermelho
E as cortinas, junto aos poros, que se abrem, arrepiando
No anseio por todos os transtornos e deleites
Nas revoluções a me alucinar os nervos e ossos
No agonizar das lembranças poucas
No absorver de tudo ao redor a decorar uma nova percepção
E em tudo o que se pode envenenar
Com as sinestesias da paixão.

11 julho 2009

zazuera


enquanto ela dança

seus cabelos se bangunçam,

transtornam meus sentidos

suas pernas se enroscam em meus desejos

seus risos me coram o olho

enquanto ela se balança

cantando sorrindo jorge ben

ela espanta os males da minha solidão

espanta os ocres versos dos meus poemas

condena os meus risos todos ao seu rodopiar


enquanto ela dança

os meus medos se amorenam em seu olhar fugidio

e a batucada vem dominar a minha taquicardia

e me enrubreço pele a dentro

me reconheço verso afora

remetendo-lhe todas as minhas rimas repetidas

alcanço seu leve cansaço

desfaço os nós de suas possíveis crises

ameaço suas agonias sem que ela saiba

sem que caiba a minha vida em sua história


e os meus dedos se confundem na beleza que eu queria versar

os meus delírios se espantam e se arremeçam

as minhas certezas se embaraçaram

enquanto o meu blues vira batucada

enquanto ela revira todas as minhas vontades

a girar...


*

14 junho 2009

paixão


que ela um dia possa revelar-se

consumir-se...

que ela não se vista com a angústia de olhos escondidos

que ela não seja o remoer das vontades e memórias antes do sono

que não mais seja suja, um dia...

que ela, que nos estremece e tortura,

possa ser linda por fora como nos é por dentro

e que as palavras possam acontecer

e que os olhos possam se cruzar sem olhares ao redor a nos punir

que os poetas a possam cantar

que as palhetas a possam colorir

que não seja um sorriso amarrado na lágrima

que possamos ser destinatários e remetentes

das cartas e confissões hoje ocultas e caladas

que seja ela um lugar com janelas e redes

e não um porão escondido

que a minha pele possa corar diante dela

e que todo o meu sistema nervoso possa enlouquecer

que os meus versos possam rebuscar suas beleza

sem suas cores e aromas

sem que me pareça, o dia, um caminhar errante

que ela deixe de ser fraqueza

que deixe de ser fantasma

que ela seja um grito a declarar as delícias de viver

que seja um riso pleno, sem pátria e sem nome

que possa ser o que é.


-

23 abril 2009

de nuvem

minhas mãos tremem
suam
ardem

consomem, os meus olhos, livros e livros e livros
poemas,
cartões de aniversário,
bula de remédio,
rótulo de condicionador,
mas nunca, em momento algum,
encontram o que procuram

meus lábios secam
amargos
condenados às tormentas e ao agreste sabor da ilusão
minha lingua cala
gelada
as palavras e palavras e palavras que não sei dizer
as alegrias que não sei viver
as tristezas que não sei sentir

meus olhos tremem
diante do meu peito desestruturado
diante das xícaras e xícaras de chá pra acalmar os nervos
minhas mãos secam
estúpidas
cansadas de tantos desencontros e poréns
meus lábios se contorcem de agonia
de paixão
de procura
diante de tantos vazios
diante de tantas árvores de plástico
diante de tanta etiquetagem

minha língua sangra
dormente
meticulosamente silenciosa
tentando conter todos os gritos
todas as revoluções
todo o desespero desse amontoado de ilusões
tentando guardar dentro do peito a poesia de amor em falso
fingindo ser quietude um coração que é transtorno.


*

17 abril 2009

Sem alardes

Sentir.
Deixar-se sentir.
assim, simples, pura, intensamente.
Ser invadida,
preenchida.
Ser instante
instável
surpreendente.

As moléculas de ar, partículas de vida, átomos do tempo, percorrendo o corpo cansado, a mente cancerígena, percorrendo cada pêlo, transbordando em cada gosta de saliva, transformando cada mísero pensamento. Os olhos suam.

Sem surpresas,
sem nuances,
sem dor.
A pele se encolhe
arrepiada
arredia.
O lírico introspecta-se,
revela-se,
sem alarmes,
sem surpresas,
sem cor.

O vento sopra, revirando cada fio de cabelo, evaporando cada lágrima, redecorando o rosto, o gosto por estar ali, parado, quieto, simples. O ar ao redor a reorganizar, obsoleto, as moléculas e vazios ao redor do corpo, os átomos do tempo ao redor da vida, as partículas de poeira a assentar na pele.

Livre
Concreto
Faminto

As palavras que deslizam, analfabetas, necessitadas, escorregadias, símbolos e símbolos e símbolos... sons e sons. O refúgio dos que ainda não aprenderam a se conter, se conformar, se ler sem a letra sem dono da poesia. As palavras despencam, escapam calmas, gentis, intensas.

Sair.
Sentir
o amargo respirar
o doce respirar.
Deixar-se entrar.
Deixar-se ver.
Suar de beleza,
de angústia,
de paixão.
Permitir-se.
Provocar-se à vida.

Os átomos do tempo. As células do corpo. Os hiatos entre a memória e o sonho. As salivas. Os suores. Os desesperos os deslumbres o desbunde a fantasia. As pessoas. As esfoliações para eliminar a camada de células mortas. As proliferações. Os poemas. As complexidades, as inalcansáveis e incompreensíveis complexidades que nos movem...

no alarms,
no surprises,
please.

*

21 fevereiro 2009

quisera

Quisera
a minha emoção falida de razões, pura, santa, louca
os meus frágeis corações pudessem chorar sem pudor
quisera os meus caminhos sempre em teus olhos
quisera poder curar o mundo de uma vez por todas.
Quisera, ai,
o tempo um tanto dilatado, não tão rígido ou escasso
estar a salvo de todas as crises e de todos os quases
quisera poder liquidar os poréns da vida
quisera os meus anjos de carne e pano sempre por perto...
Quisera todas as guerras em paz
poder viver a eternidade e infinitude de cada minúsculo instante
conhecer a língua das mariposas e as cores da inspiração
quisera o anti-heroísmo e o irracional ante a vida
quisera viver apenas pelo coração...
Quisera
alcançar a cereja de cima do bolo de minhas ilusões!
sugar o calor das brisas, sorrir os jardins perfumados dos poetas
quisera abolir todos os meus maus dias
promover a eterna alegria de ser
dançar, rodopiar descalça, sem chão, sem céu, sem salário, sem nada...
apenas dançar
sem medo
sem porquê
sem passo decorado de balé ou funk
sem espectador
sem dor...

***

poema sem nome

Dias doces, quentes, úmidos
dias tantos
sem um sequer se repetir.
Noites longas, melodiosas
noites raras
que começam já ao amanhecer

Vidas tantas que se passam
nestes minutos e anos de euforia em paz
flores tantas que germinam
simples e belamente

Feito paixão desperta a contaminar
Feito razão escassa a se extinguir

Dias que voam e se eternizam
em meu devoto e primário coração
que só sorri e canta
se assim for.

***

sol do grito

Qualquer folha branca que se manche
se desmanche
que me manche os lentos pensamentos sobre o pensar, pesar, poesar...
Qualquer palavra que se diga
que prossiga
para além do contentamento descontente que mendiga meu curandeiro versar.
Migalhas
que muralhas
e mortalhas destroem, comem famigeradas, estas palavras, cadabras, magras em letra gordas em voz.

Faíscas que sejam iscas.

Os meus olhos e poros abertos, a se encharcar de tinta, a se fartar de migalhas.
Os meus dentes rentes ao sol do grito.

Qualquer imensidão que fique
que agride
e que se agite no vocabulário ilário e otário da gramaturgia
que seja orgia!
Que seja grande e próxima
e tóxica
e afásica a canção que me venha povoar o versar...
Que se tinja
que atinja
os olhos e poros rasos de lágrima e sorrir.

Que seja tola.
E que seja toda o que tiver de ser.

a lida e a página

sinto como lâmina ardida
rasgando velha ferida minha
os teus olhos distantes dos meus
e feito ância
o meu anseio por ti se refaz
e feito um manancial
os meus lábios sobre o teu retrato
é pecado e furor

um bem-querer sem par
sem mais, sem paz

o mal-me-quer que sobrou na flor
memórias raras
dum sabor que não provei
cor a qual não me dei, só senti
sofri, doí, sem exatidão
lacunas no teu não
ausências no perdão...

mas tudo o que é vivo voa
e voei eu, voou você
sem direção, sem porquê
e tudo o que é vivo sonha
e um pedaço de mim
será sempre o sonho que ficou
sem asas ou tréguas, sem mágoas...

feito lâmina esta lágrima
uma ilusão solitária e anônima
castelo de pó e luz...

*

19 fevereiro 2009

poema para quando foi embora

e quando voltares
menina dos olhos raros
pássaros pousarão a te esperar
odes tuas a cantar
e eu tão leve te estarei a festejar...
e quando voltares
aos dias meus visitar
menina dos olhos tantos
estarei
não mais de saudade aos prantos
mas de amores a ruflar
estarei ainda a versar
à tuas noites à tua altura acalantos
que, ao cair da noite,
menina dos versos mansos,
eu te possas embalar...

com risos cheios de mar
tu virás aos risos meus
teus samba sem sons nem nada
teus riscos e discos, tão fada,
meus trigos voltarás a semear...

e os ares já se remexem
ante um único múrmurio de voltares
lembrando que aos teus olhares
primaveras lhes florescem
já livres, quase se esquecem,
esses ventos tais fulgares
que trazes não só olhares
mas teus barbantes e encantos!
e que em nós, que te ansiamos,
despertas bem mais que flores
compões mais, bem mais, que cantos

são tantos os teus trazeres
teus múltiplos dons
teus tantos...
*

18 fevereiro 2009

porque eu me chamo ainda Liandro Pena

Alaúde


dança, mulher dos ares,

às minhas odes

mares moves tão solares.

dança, mulher das fases,

que assim me fazes

silentes horas compor tão foz.

dança, mulher-bolero,

meu samba, meu mangue,

faz sangue no alaúde

amiúde dançarina

amiúde dança, balança,

faz trança nas cordas minhas,

mulher dos bares...

que eu calo meu gesto

para os ares, a correr,

eu ouvi-la remexer.


*


ai, suburbano coração

clarice e francisco se amando

ametistas

amiantos

acalantos sem noites vãs...

palheiros

palhoças

palhaços sem canção

suburbano coração!

o amor

num porão

o pavor

na paixão

furor

fulgor

facão

suburbano coração.


*


::Passeias amorenada por meus olhos já atentos, passas de leve em meu sonhos, passos lentos... Clareias tão silente os meus noturnos e ardentes devaneios, em si carregas as dores e flores do mundo, imundo, esbaldo-me em tuas canções retalhadas de amores! Passeias cansada de injustiçados pecados, nos olhos sorrisos inatos, fisgados por versos meus... Vagueias sem paz, sem perdão, tão leve que levas contigo a paixão, o vulcão que tanto guardei, escondi, desdenhei. Em si condenas as cores, os ares da vida... esculpida em meus versos te canto, me encanto, me causo ferida.::


" oh meu amor, para sempre, nunca me conceda descansar " (chico buarque)


*

aguardente

Sim, ele o beijou
Enfim, desbravou-se deliciosamente
Ele, em si, gotejou
Lágrimas de aguardente
Para que pudesse o outro
Também, santo, embriagar
E como nunca, crepitando,
Corpo a dentro fez-se mar



De cabelos pretos lisos
Olhar de pano e perdão
Vai, finalmente livre,
Ser fogueira sem clarão
E na aguardente do choro
Fincou-se o riso do espanto:
O que antes beleza de sonho
Tornou-se, em saliva, canto

E assim, olho a dentro, farol
Assim, noite afora, canção.

*

páprica

que um dia eu lhe possa dizer ou cantar
as rimadas palavras que fazes correr
neste sangue, que salta das veias pra ver
só a ti, pálido, cítrico, lírico mar

que em uma noite qualquer eu te faça corar
com meus tão soltos dedos a te percorrer
minhas pálpebras lívidas a te corromper
com desejos, paixões, com vulcões no olhar

e que cismes, tão louco, em meu peito dormir
e que tranques meu sol em teus dias latentes
que em meus risos teus beijos prometas cair

que os nossos sapatos se pisem contentes
que alucine sonetos teu olho a fulgir
papricando-me as cores, antes tão dolentes...

*

mas para que cerder-te meu canto?

*

MAS PARA QUE CEDER-TE MEU CANTO?

que para, ora, no teu final espanto
possa sorver e opor minha ode canelada
minha canção obscena, sutil e gelada
ora, voraz, a rogar-te quebranto

e para, também, ser sangue na espada
à ferida a cura, a causa, o manto
para que venhas, a sorrir, no entanto
a supor e reclamar, me ver fechada

é para isso o meu esforço, meu canto
para que em ti possa ser proclamada
a loucura ante o óbvio, ante o santo

a promiscuidade no urbano, difamada,
com isso, já não tão mais de canto,
possa ser grito, esta arte, antes guardada

*

primeira folha


" sempre há um tudo que precisa ser dito

sempre há também um tudo que precisa ser sentido

e sempre há num tudo

um todo e um vazio...

eis-nos aqui

um folha pálida, na ardida sede por tinta

e meu coração inchado de todos e vazios

e é exatamente por este mundo oculto

que se alagarão os vazios

e nada mais importa

senão a coragem

de olhar pra esta página oca

e começar."


(primeira folha do meu novo caderno de poemas)